sábado, abril 28, 2007

Travessias: Transitando pelo Sonho de uma Rua: Fragmentos
... Ou terei sonhado? Ou terei escutado isso de alguém? Mas eu vi, eu sei que vi aquele cano brilhante do revólver mexendo a bebida num copo de vidro, eu vi! E vi aquele cachorro fugindo, ganindo do chute que levou no quarto traseiro...
Dias depois, repete-se o sonho, volta o quadro, e agora, o que era, o que eu vi? Um corpo, estirado na calçada, coberto com um lençol branco, dois tiros apenas, e pelas costas. Mas, agora, parecia ser outro tempo, outro morto... É, pensando bem, acho que este era o Édio Garimpeiro, eu vi os seus cabelos pretos, espetados, sob o lençol branco, ralinho, ralinho, coisa de pobre. Ah, o Édio era um caboclo daqueles, moiado meeesmo! Morria, mas nunca ia beber bebida que alguém mexeu com o cano do revólver! Ah, matar o Édio, só se fosse mesmo pelas costas...
Sim, este era outro morto, em outra calçada, em outra rua, esta diferente daquela do outro sonho — mas, na mesma cidade?! Será? Qual cidade, quando, não sei... pois na outra rua, aquela em frente ao Triângulo, o outro afinou, bebeu a bebida mexida pelo pistoleiro, e não chegou a haver morte, só aquele cachorro saiu ganindo da venda... naquela outra calçada, o morto, se existiu, foi em outro sonho...
Esses relatos são fragmentos, brotações de realidade enxertados no sonho, ou o contrário, fragmentos de sonhos enxertados na realidade — não importa. Só carecem de ser postos no jeito, organizados minimamente, senão, ninguém entende nada, nem eu...
Mas, com isso de alguém me entender, na verdade das verdades mesmo, eu nem me importo mais; já perdi essa esperança, faz tempo... se você quer mesmo saber, eu até já morri, já fui... Afinal, isto, estes pedaços de sonhos, não são coisas pra ninguém entender, são desdobres do meu tempo, é só mesmo por conta dessa mania de escrever. Ou então, o mais certo, é para ser aos conformes do entendimento de cada um! Quem viveu, se viu, viu; se não viu, então não viu, isto é, só não viu, mas pode sonhar o meu sonho, se quiser.
Travessias — tudo é só umas fervurinhas na mente!

2 comentários:

Alessandra disse...

Você tem o dom de me transportar!

Maria Quitéria disse...

A tua letra, esse teu jeito de escrever, essa coisa que vem da entranha e entranha na gente. Também não sei explicar e nem sei se me faço entender, mas entendo. Falou em esperança, meu Lord? Ah! Ainda te dou um banho dela!
Beijos de pinga mexidos com... cabo de pistola? (rs)
MQ, aquela.